Às vezes, eu queria poder pegar meus pacientes no colo.
E carregá-los pelas partes mais difíceis do caminho,
atravessar por eles, protegê-los da dor, encurtar a  sua jornada.

Mas há algo que aprendi com a clínica  e com Winnicott:
ninguém pode fazer o processo pelo outro.

O amadurecimento exige que cada um viva o próprio percurso.
Porque é nesse percurso que a pessoa se torna real.
É nesse esforço pessoal que ela reconhece seus próprios contornos, seus limites e potências.
É ali que se criam os vestígios de transformação.

E, mesmo assim, há algo que eu posso  e devo fazer:
estar ali.
Sustentar.
Segurar.
Ser o ambiente suficientemente bom para que o outro possa existir, cair, e se reerguer com segurança.

Não posso carregar nos braços,
mas posso caminhar ao lado.
Oferecer presença, consistência, acolhimento.
Posso ajudar a organizar as bagagens emocionais,
e mostrar, com ternura, que algumas já não precisam mais ser levadas.

E é por isso que, quando alguém encontra um terapeuta, um analista,
é tão importante sentir esse laço.
Essa sensação de que o espaço é seguro,
de que há alguém que segura, sem invadir.

Porque no fundo, a clínica não é sobre carregar o outro…
É sobre permitir que ele descubra que pode caminhar com as próprias pernas,
desde que, ali do lado, haja alguém que confie,
e sustente o silêncio, a dor, e o tempo do renascimento.